
Uma pequena figura feita de palha, criada durante um período de recolhimento religioso, foi o ponto de partida para uma história que hoje une arte, espiritualidade, ancestralidade e empreendedorismo. O que começou como uma descoberta quase acidental se transformou no Santo Dendê, marca sul-mato-grossense de artesanato autoral criada pelas artistas Evellyn Guissone e Eliana Souza.
Inspirada nas religiões de matriz africana, a empresa produz esculturas em biscuit, pinturas em pratos de barro e madeira, incensários, amuletos magnéticos e peças decorativas que homenageiam orixás, entidades e elementos da cultura afro-brasileira.
“O Santo Dendê é uma marca de arte autoral inspirada nas religiões de matriz africana. Transformamos ancestralidade, espiritualidade e cultura em obras artesanais únicas”, define Evellyn.
A origem do negócio remonta a cerca de três anos atrás, durante seu recolhimento para o orixá. Em meio ao processo religioso, ela começou a utilizar pedaços de palha que seriam descartados para criar pequenas figuras artesanais.
“Ainda no quarto de santo, comecei a brincar com pedaços das palhas das esteiras que seriam descartadas e acabei criando um pequeno boneco de palha. Minha Iyagibonã, Eliane, que se tornou parceira no negócio, achou a peça linda e me incentivou a continuar”, relembra.
O incentivo foi decisivo. Durante o período de preceito, quando passava as noites de sexta-feira no barracão, Evellyn voltou a exercitar sua criatividade utilizando uma simples massinha de modelar das crianças que frequentavam o terreiro.
“Fiz uma pequena cabeça de búfalo inspirada em Oyá. Mais uma vez, minha Iyagibonã gostou muito do resultado e foi ela quem me deu minha primeira oportunidade”, conta.
A oportunidade veio na forma de uma encomenda de 50 bonecas de Maria Pretinha para uma celebração religiosa. Mesmo sem experiência com biscuit, ela aceitou o desafio.
“Eu nunca tinha trabalhado com biscuit, mas aceitei cobrando apenas o material. Com a ajuda da Eliana, da minha esposa e de algumas irmãs do terreiro, conseguimos produzir as peças e entregar o pedido”, recorda.
Novas encomendas começaram a surgir e, pouco a pouco, o que era apenas uma habilidade em desenvolvimento se transformou em um trabalho cada vez mais refinado.
“Eu ainda estava aprendendo e cobrava praticamente só o valor dos materiais, mas cada peça me ajudava a desenvolver minha técnica e ganhar mais confiança no meu trabalho”, afirma.

Em janeiro daquele ano, as duas perceberam uma coincidência curiosa. Enquanto Eliana produzia uma pintura de Oyá para presentear a amiga, Evellyn criava uma representação da mesma divindade.
“Essa coincidência nos aproximou artisticamente e deu início a uma troca de obras inspiradas nos nossos orixás”, explica Evellyn.
A conexão rapidamente evoluiu para uma parceria criativa. Vieram as conversas sobre identidade visual, posicionamento da marca e formas de unir pintura e escultura em um único projeto.
Depois de muitas ideias, pesquisas e versões de logotipo, nasceu oficialmente o Santo Dendê.
O nome carrega um significado especial. Segundo as empreendedoras, ele surgiu a partir da expressão “Casal Dendê”, utilizada para representar Oyá e Xangô.
“Como eu sou de Oyá e a Eliana é de Xangô, o nome representa nossa ligação espiritual com os orixás e os valores que inspiram a marca: força, movimento, justiça, ancestralidade e respeito às tradições afro-brasileiras”, explica.
A estreia diante do público aconteceu antes mesmo de elas se sentirem totalmente preparadas. Evellyn decidiu inscrever a marca na Feira Ziriguidum sem avisar a sócia.
“Quando contei para a Eliana, ela respondeu: ‘A gente nem tem material para expor’. Mas resolvemos tentar mesmo assim”, relembra, entre risos.
A decisão exigiu uma corrida contra o tempo para produzir estoque, organizar a estrutura e preparar a apresentação da marca.
Em junho de 2026, o Santo Dendê participou da primeira feira e apresentou oficialmente suas obras ao público. A recepção positiva reforçou o potencial do projeto e abriu caminho para novas encomendas.
Hoje, o negócio atende praticantes das religiões de matriz africana, colecionadores, admiradores da cultura afro-brasileira e pessoas que buscam peças carregadas de significado.
“Muitos clientes têm dificuldade em encontrar obras produzidas com conhecimento, respeito e fidelidade aos elementos religiosos que representam. Nosso objetivo é oferecer representatividade, identificação e conexão espiritual por meio da arte”, destaca Eliana.
O principal diferencial da marca está justamente na autenticidade.
“Criamos a partir da nossa vivência, do estudo e do respeito às tradições que representamos. Mais do que objetos decorativos, nossas obras carregam histórias, simbolismos e identidade”, afirma.
Com a procura por encomendas personalizadas crescendo gradativamente, as empreendedoras já projetam os próximos passos. Entre os planos estão o desenvolvimento de esculturas maiores, novas coleções inspiradas em orixás e entidades, além da participação em mais feiras e exposições culturais.
Para elas, o crescimento da valorização da arte autoral e da cultura afro-brasileira abre novas possibilidades para artistas independentes.
“As pessoas têm buscado cada vez mais peças que carreguem significado, identidade e conexão cultural. Isso fortalece artistas independentes e contribui para a valorização das tradições afro-brasileiras através da arte”, avaliam.
O público pode acompanhar o trabalho do Santo Dendê por meio das redes sociais, @santo_dendes, no perfil das empreendedoras estão as criações, bastidores, processos artísticos e novidades.
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