
Existe uma frase que quase todo mundo já disse diante da morte de alguém: “Sinto muito.” Ela cabe numa mensagem, abraço rápido, comentário nas redes sociais. Às vezes é tudo o que conseguimos dizer. O problema começa depois.
Depois do velório. Depois das flores. Depois que as pessoas voltam para casa e quem perdeu alguém continua ali, com a mesma ausência.
Foi pensando nesse lugar, onde as palavras começam a faltar, que a psicóloga e psicanalista Raissa Ramos Ferreira Pedroli (CRP 14048277), especialista em Lutos e Perdas, escreveu Sinto Muito, livro que será lançado no dia 27 de setembro, em Campo Grande.
A obra não promete ensinar ninguém a “superar” uma morte. Questiona a pressa em transformar sofrimento em uma etapa vencida.
“Às vezes, a pessoa enlutada só tem uma notícia velha. Perguntam ‘como você está?’, mas ela não tem uma novidade para dar. A pessoa continua morta, a falta continua ali. Parece que existe uma expectativa de que, depois de algum tempo, ela tenha alguma melhora para contar”, explica Raissa.
“Notícia velha”, inclusive, é o nome de um dos capítulos. A expressão resume uma situação recorrente para quem perdeu alguém: enquanto o mundo espera alguma mudança, a ausência permanece.
É desse desconforto que nasce boa parte de Sinto Muito. Em vez de olhar apenas para quem morreu, Raissa escreve sobre quem ficou e também para quem está por perto, querendo ajudar, mas sem saber o que dizer.
“Sobre a morte, realmente não há mais o que fazer. A pessoa morreu. Mas há muito o que fazer sobre a vida de quem ficou.”
Quando o consolo também machuca
Há quase sempre boa intenção por trás de frases como “você precisa ser forte”, “foi melhor assim” ou “você precisa seguir em frente”. Mas boa intenção nem sempre significa acolhimento.
Uma das discussões do livro é justamente sobre aquilo que Raissa chama de “a crueldade do consolo”: a necessidade de preencher o silêncio de quem sofre com alguma explicação, conselho ou promessa de que tudo ficará bem.
“A morte não é justa. Não é boa, não é legal. Não existe uma maneira de transformar aquilo em algo ‘ok’. Quando alguém perde uma pessoa que ama, às vezes o que temos para oferecer é presença. Não uma solução.”
O livro também fala sobre como as redes sociais mudaram a forma de viver o luto. Fotos, homenagens, perfis de quem morreu e até lembranças que aparecem de surpresa no celular fazem com que a ausência continue presente também no mundo digital. “A morte saiu da esfera privada para a pública e também virou um objeto de consumo. Não basta saber que alguém morreu. Existe uma curiosidade sobre como morreu, do quê, quanto tempo levou. E, ao mesmo tempo, parece existir uma necessidade de demonstrar publicamente que estamos sofrendo”, observa.
Uma história anterior à Psicologia
Embora Sinto Muito tenha sido construído a partir dos estudos e da experiência clínica da autora, existe uma camada que Raissa manteve reservada durante boa parte de sua trajetória profissional.
Sua proximidade com a morte começou ainda na infância, muito antes da faculdade, da especialização e do primeiro paciente enlutado.
“Eu conheci a morte primeiro de uma maneira muito crua. Só depois fui entender a parte eufêmica, a maneira mais bonita que as pessoas encontravam para falar dela. Para mim, falar que alguém morreu era normal. Depois descobri que, para muita gente, não era.”

No livro, Raissa finalmente conta como uma menina se tornou tão familiarizada com aquilo que a maioria dos adultos evita até pronunciar. São memórias que ajudam a explicar tanto a escolha profissional, quanto a disposição para permanecer em conversas difíceis.
“Essa proximidade me deixou sem medo de estar perto, de fazer as perguntas difíceis e de escutar conversas e respostas dolorosas.”
A experiência pessoal aparece ao lado da profissional porque, para Raissa, conhecer o luto teoricamente não significa estar protegido dele.
“Ser especialista não protege a gente de sofrer. Eu conheço a teoria, acompanho pacientes, estudo o luto há anos. Mas, quando alguém que eu amo morre, eu também sou uma pessoa enlutada.”
Para quem perdeu e para quem ficou por perto
Com 132 páginas, Sinto Muito reúne experiência clínica, reflexões e memórias pessoais em textos que podem ser lidos separadamente. A proposta da autora não é oferecer respostas prontas, mas acompanhar quem perdeu alguém e também ajudar quem convive com uma pessoa enlutada.
“Eu pensei nele como uma companhia. Uma coisa que a pessoa pudesse levar na bolsa, deixar no carro, na cabeceira, abrir quando tivesse vontade.”