Na natureza não faça NADA, só contemple e agradeça a sorte por esse encontro.
Agora, e se ele aparecer na sua casa, dentro de um shopping, em um restaurante ou até mesmo no aeroporto, sim!
Inusitado? Nem tanto, o forro do telhado do receptivo do aeroporto de Bonito foi o local que uma mamãe suindara escolheu como ninho.
Era um dia comum na cidade turística e eu estava recebendo um amigo, também veterinário, em minha casa quando recebi esse chamado do aeroporto para ajudarmos no resgate de uma mamãe suindara e seus filhotes, fomos então com a ajuda da PMA (Policia Militar Ambiental) resgatar essa família.
Aves próximas a aeroportos são sempre motivo de atenção, pois em pousos e decolagens de aeronaves elas podem causar e sofrer acidentes e uma mamãe suindara ensinando seus filhotes a voar, não era algo muito seguro, para ambas as partes. O resgate foi bem complicado, o ninho era no sótão , o acesso difícil e perigoso e, como esperado, a família não ficou juntinha nos aguardando, foi um pra cada lado e correr pela pista com um puçá nas mão é uma cena no mínimo engraçada.
O trabalho em equipe foi fundamental para o sucesso da missão, as corujas foram resgatadas e levadas para um zoológico local que possuía as instalações adequadas para mantê-las e onde foi analisada a possibilidade de soltura da família toda.
O local escolhido para soltura foi a Gruta Catedral, um local que apesar de ser um atrativo turístico e receber visitas de turistas, conta com áreas reservadas onde a visitação não ocorre e as suindaras poderiam viver livres e seguras.

Tivemos um resultado incrível e foi uma história de resgate que podemos comemorar, como tantas outras que vivi e vivo em minha profissão.
Trabalhei diretamente com resgate de fauna em muitos locais e passei por muitas situações semelhantes à descrita abaixo:
Ao recolher o lixo, por volta das 6 horas da manhã, a funcionária de um salão de beleza, na capital, encontrou um animal peludo, narigudo, que parecia preso dentro do balde ou tirando um cochilo da noite anterior.
Apesar da surpresa, situações como essa têm se tornado cada vez mais comuns nas cidades. Animais silvestres estão entre nós, nas calçadas, quintais, empresas e, às vezes, dentro de casa.
A Polícia Militar Ambiental (PMA) lembra: animal silvestre não é pet. E também não é vilão. Em muitos casos, ele só está tentando sobreviver. Saem à noite em busca de alimento e, às vezes, acabam ficando presos em locais onde não conseguem mais sair. Foi o que aconteceu com o gambá do salão de beleza — não estava ferido, mas também não conseguia escapar sozinho. O espaço cheio e o medo generalizado justificaram o resgate feito pela equipe da PMA.
“O ideal é nunca tocar no animal. Primeiro, entre em contato com a PMA. A partir das informações, a gente avalia se o caso exige resgate ou apenas orientação”, explica o sargento Wagner da Silva Azevedo, responsável pela ocorrência.
A natureza não reconhece fronteiras
Vivemos tão mergulhados na rotina urbana que esquecemos: a cidade também é habitat. Capivaras, gambás, quatis e até serpentes se adaptaram ao concreto e às avenidas, mas não deixaram de ser selvagens. Eles estão em busca de comida, abrigo, sobrevivência — e nem sempre representam um risco. Ao contrário: o risco, muitas vezes, somos nós.
Quando capturados sem necessidade, esses animais podem se machucar. Quando alimentados por humanos, perdem o instinto de busca e podem se tornar dependentes, fora o fato que o que comemos na maioria das vezes vai afetar seriamente a saúde deles. E quando tentamos tratá-los como bichinhos de estimação, cometemos um erro que, além de perigoso, é crime.
Só no primeiro semestre deste ano, a PMA atendeu 1.513 ocorrências envolvendo fauna silvestre na região da Bacia do Paraguai. Mais de 430 animais estavam saudáveis. Em 20% dos casos, o resgate não foi necessário — bastava deixar o animal seguir seu caminho.
Como agir com responsabilidade
Se você mora próximo a áreas verdes, córregos ou reservas naturais, algumas atitudes simples ajudam a prevenir encontros arriscados:
Evite deixar ração ou restos de comida no quintal.
Mantenha lixeiras bem tampadas.
Proteja acessos a forros, telhados e locais estreitos onde animais possam se esconder.
E se encontrar um animal silvestre ferido, preso ou em situação de risco? Nada de tentar resolver sozinho. Ligue para a Polícia Militar Ambiental e aguarde as instruções.
Casos curiosos não faltam. Já teve filhote de sucuri em filtro de carro, cascavel em loja de utilidades e jiboia no quintal. Cada um exigiu uma abordagem diferente. E vale lembrar: os policiais da PMA fazem o resgate com segurança, mas não são responsáveis por desmontar estruturas para alcançar o animal. Nesses casos, o proprietário do imóvel deve contratar apoio especializado.
Ah, e se o animal estiver morto? Em Campo Grande, o contato deve ser feito com a Solurb, empresa responsável pela coleta. No interior, cada município tem um serviço próprio.
Reflexão final: a cidade também é floresta
Em tempos de crescimento urbano acelerado, quem invade o território de quem? A presença de animais silvestres no nosso cotidiano não é um acidente — é consequência direta de como transformamos a paisagem. Aprender a conviver com a fauna é mais do que uma questão de segurança: é respeito à vida.
A próxima vez que um visitante inusitado aparecer, respire fundo. Lembre-se: ele está tão assustado quanto você. E talvez, se todos soubermos como agir, o encontro improvável se transforme apenas em mais uma história para contar — sem susto, sem conflito e com mais consciência sobre o nosso papel no ecossistema que também é urbano.