
Todos os anos, entre outubro e dezembro, as manchetes se repetem: “Comércio abre vagas temporárias para o fim de ano”. Mas, segundo a Câmara de Dirigentes Lojistas de Campo Grande (CDL-CG), essa é uma meia-verdade. As vagas sempre existiram, o que muda é o olhar da imprensa e da população quando o Natal se aproxima e o varejo precisa reforçar as equipes às pressas.
O Brasil vive um paradoxo inquietante: sobram desempregados, mas faltam trabalhadores. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostram que 57 dos 100 cargos mais comuns no país estão com escassez de profissionais, mesmo com cerca de 6 milhões de brasileiros fora do mercado. O problema, segundo especialistas e empresários, não é técnico. É cultural.
A geração que cansou do crachá
A nova geração não rejeita o trabalho, rejeita o formato. O crachá virou símbolo de aprisionamento; a carteira assinada, de metas inalcançáveis e controle excessivo. O reflexo disso é que o país alcançou o maior número de microempreendedores individuais da história: mais de 15 milhões.
Pela primeira vez em uma década, o trabalho informal cresce mais rápido que o formal. As pessoas não querem chefes, querem autonomia. Não buscam estabilidade, mas tempo. E essa mudança está redesenhando o mercado de trabalho e a relação das pessoas com o emprego.
Empresas têm vagas, mas faltam mãos
O setor produtivo segue aberto a novas contratações, mas enfrenta um desafio crescente. Levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) mostra que 74% das empresas do varejo têm dificuldade para contratar. O motivo não está na falta de oportunidades, e sim de preparo, interesse e disposição para se adaptar a novas rotinas e exigências.
O retrato em Campo Grande
Com 962 mil habitantes, Campo Grande tem cerca de 495 mil pessoas economicamente ativas. Mas apenas parte delas trabalha diretamente na produção da riqueza que move a cidade: são 60 mil no comércio, 36 mil na indústria e construção e 17 mil no agronegócio.
Enquanto isso, 129 mil campo-grandenses atuam no serviço público, setor que depende dos impostos gerados por quem produz, e outros 90 mil vivem de benefícios sociais, sustentados pela arrecadação.
Em outras palavras: é o comércio que mantém a engrenagem girando. Sem o faturamento das empresas, não há imposto; sem imposto, não há Estado; e sem Estado, não há benefícios.
A CDL Campo Grande reforça que o setor produtivo não precisa de mais vagas temporárias, mas de pessoas dispostas a construir trajetórias sólidas. Porque o comércio e os serviços sustentam a economia o ano inteiro, não apenas no Natal.