
O debate sobre drogas costuma ganhar força em datas específicas, mas o problema não escolhe calendário. Em Mato Grosso do Sul, estado que ocupa posição estratégica na rota do tráfico internacional, os números ajudam a dimensionar o tamanho do desafio: 196,5 toneladas de drogas foram apreendidas em 2024 pelo Departamento de Operações de Fronteira, a segunda maior marca histórica desde a criação da unidade.
O volume superou o registrado em 2021 e representou crescimento superior a 30% em relação a 2023, quando 150 toneladas foram retiradas de circulação. Os dados evidenciam o esforço das forças de segurança. Mas especialistas lembram que a discussão não termina nas estatísticas. O impacto das drogas atravessa fronteiras invisíveis e chega às famílias, às escolas e aos consultórios.

“O enfrentamento às drogas não é apenas uma questão de segurança pública. É, sobretudo, um desafio de saúde mental. Toda substância psicoativa altera o funcionamento do cérebro e pode levar à dependência química”, explica o psiquiatra Eduardo Araújo.
Segundo o médico, drogas lícitas ou ilícitas atuam diretamente nos neurotransmissores e no sistema de recompensa cerebral. Com o uso repetido, o cérebro passa a associar a substância à sensação de prazer ou alívio, criando um ciclo de necessidade crescente.
Entre as classes mais associadas ao desenvolvimento de transtornos mentais estão o uso abusivo de álcool e maconha; estimulantes como cocaína, crack e anfetaminas; e substâncias que alteram a percepção, como LSD e ecstasy.
“O uso abusivo pode provocar desde irritabilidade e ansiedade até quadros graves, como depressão profunda e transtornos psicóticos. Em alguns casos, pode haver perda de contato com a realidade”, detalha.
Os sinais de alerta incluem compulsão pelo consumo, necessidade de doses cada vez maiores, sintomas físicos e emocionais na ausência da substância, mudanças bruscas de humor, alterações no sono e dificuldade de concentração. Entre os transtornos frequentemente associados estão depressão, ansiedade, transtorno bipolar e quadros psicóticos.
O tratamento, reforça o psiquiatra, deve ser multiprofissional e individualizado, podendo incluir medicação para controle da abstinência, acompanhamento psiquiátrico e psicoterapia. “Dependência não é falta de caráter. É uma condição clínica que precisa de cuidado.”
O risco invisível do álcool
Embora seja legalizado e socialmente aceito, o álcool figura entre as substâncias que mais causam dependência e danos à saúde mental. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública apontam aumento no consumo entre adolescentes de 14 a 17 anos, além de uma mudança no perfil: proporcionalmente, mais meninas relatam já ter experimentado bebida alcoólica do que meninos.
Hoje, um em cada nove jovens brasileiros apresenta critérios para transtorno por uso de álcool.
“A adolescência é uma fase de intensa transformação. O jovem busca pertencimento e aceitação social. Muitas vezes, encontra na bebida uma forma de se integrar”, explica Eduardo. “O problema é que o cérebro ainda está em desenvolvimento. O álcool pode causar alterações duradouras e aumentar significativamente o risco de dependência na vida adulta.”
O especialista enfatiza que não existe dose segura de álcool, especialmente para adolescentes. O fato de ser uma droga lícita e culturalmente normalizada contribui para que o risco seja subestimado.
Mais do que uma data no calendário, o debate sobre drogas e alcoolismo é permanente. Ele exige informação de qualidade, diálogo aberto dentro de casa e na escola e políticas públicas que integrem prevenção, tratamento e acolhimento.
“Proibir sem conversar não resolve. O adolescente precisa compreender os riscos reais. Família e escola são fundamentais nesse processo”, orienta o médico.
Porque, no fim das contas, o problema não está apenas na apreensão recorde ou nas estatísticas nacionais. Ele começa, muitas vezes, com o primeiro gole que parece inofensivo e, termina onde ninguém gostaria que chegasse.