
Ao viver a violência e encontrar acolhimento na rede de proteção em MS, mulher reconstrói a própria história; congresso reúne especialistas para discutir por que fortalecer o sistema é salvar vidas
Quando “Gabriela” (nome fictício) olha para trás, lembra que houve um tempo em que acreditou que não sairia viva da própria história. Mãe de quatro filhos, ela levava uma rotina comum até que perdas familiares e um grave adoecimento a deixaram física e emocionalmente fragilizada. Foi nesse contexto de vulnerabilidade que a violência se instalou de forma silenciosa.
No início, não havia sinais claros. Depois vieram o controle, o isolamento e as agressões psicológicas e físicas. Sem apoio estruturado, ela chegou a buscar ajuda em outro estado, mas relata que encontrou julgamento e desamparo.
“Para muitos, eu estava ali porque queria. Eu sofria porque escolhia. Eu não conseguia entender por que não conseguia sair daquela situação”, relembra.
A sensação de estar sozinha e desacreditada quase a fez desistir. Foi somente ao chegar a Campo Grande que encontrou acolhimento na Casa da Mulher Brasileira. Ali, diz ter recebido escuta qualificada, orientação jurídica e acompanhamento humanizado. “Aprendi a reconhecer os sinais, a me valorizar novamente. Voltei para mim. Não aceito mais migalhas. A estrutura da Casa foi parte essencial da minha reconstrução.”
Hoje, cinco anos depois, Gabriela fala com serenidade sobre o passado. Para ela, o que fez diferença não foi apenas a denúncia, mas a existência de uma rede articulada, preparada e comprometida.
Quando o sistema falha, a violência avança
A história de Gabriela dialoga com um dado alarmante: a maioria das mulheres vítimas de feminicídio no país não possuía medida protetiva ativa. A informação evidencia não apenas a gravidade da violência doméstica, mas também a necessidade de fortalecer a confiança nas instituições e ampliar o acesso à orientação adequada.
Para a primeira delegada titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) em Mato Grosso do Sul, Roseli Molina, o enfrentamento à violência doméstica sempre foi pensado como uma responsabilidade coletiva. “A ideia desde o início era garantir atendimento preferencialmente por mulheres, mas com uma estrutura multidisciplinar. Para que a delegacia funcionasse 24 horas, buscamos apoio de diferentes áreas: Polícia Civil, estagiários e profissionais de outras secretarias. A violência doméstica é responsabilidade de toda a sociedade.”
Ela lembra que a implantação da Casa da Mulher Brasileira, em Campo Grande, a primeira do país, foi construída com esse espírito de integração. “Participamos desde o início da construção. Não havia nem rua no local. Acompanhamos tudo e contribuímos com o olhar de segurança e proteção. A integração dos serviços no mesmo espaço mudou a realidade das mulheres, que deixaram de peregrinar de órgão em órgão. Isso agiliza, protege e salva”, conclui Roseli Molina.
Capacitação e responsabilidade institucional
Para as autoridades que participarão do 1º Congresso “Mulheres que Defendem Mulheres”, o maior risco não é apenas a violência em si, mas o descrédito no sistema.
A delegada titular da DEAM, Fernanda Piovano, destaca que compreender corretamente os mecanismos legais é fundamental para interromper o ciclo da violência. “Como delegada titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher e palestrante do congresso, entendo que a qualificação contínua dos profissionais do Direito, e também dos estudantes em formação é extremamente importante para a prevenção da violência de gênero.
Compreender a temática, conhecer os fluxos de atendimento e dominar os canais de acionamento imediato em situações de urgência e emergência é fundamental. Esses instrumentos permitem que a rede de proteção tome conhecimento de casos que muitas vezes permanecem invisíveis.
Quando essa informação chega às instituições, é possível adotar medidas em favor da mulher, interromper a violência e evitar sua escalada. Isso depende da atuação integrada dos órgãos de proteção e também do conhecimento da sociedade. Muitas vezes a violência ocorre dentro do ambiente familiar e não é presenciada por terceiros.
Por isso, é essencial que mesmo pessoas que apenas suspeitam possam acionar a rede de proteção. Havendo indícios, a Polícia Civil fará a verificação e, confirmada a violência, as medidas legais serão adotadas contra o agressor. Por isso é tão importante que profissionais e estudantes de Direito conheçam profundamente esses mecanismos, para que saibam quais providências podem adotar em favor das mulheres vítimas de violência”, afirmou a delegada.
A promotora de Justiça, Clarissa Carlotto, reforça que, embora a Lei Maria da Penha seja nacionalmente conhecida, ainda há um longo caminho para que as mulheres compreendam toda a proteção que ela oferece “Atuando diariamente com o tema da violência doméstica, percebo que as mulheres, embora ouçam falar sobre a Lei Maria da Penha, muitas vezes desconhecem os mecanismos de proteção que ela pode oferecer. Esse desconhecimento abrange também outros direitos, inclusive na área do Direito das Famílias.
É comum ouvir de mulheres que não saem da residência por medo de que isso configure abandono de lar. Quem trabalha com o Direito na prática sabe que isso não se aplica nessas circunstâncias, mas o receio ainda impede muitas vítimas de buscarem ajuda”, pontua.
Para Clarissa, o congresso surge como oportunidade estratégica de capacitação. “O evento proporcionará a estudantes e advogados o contato direto com a rede de atendimento. Conhecer as especificidades de cada órgão permite um atendimento muito mais eficaz às vítimas.”
A psicóloga Márcia Paulino, que integra a programação, lembra que a forma como a vítima é recebida impacta diretamente sua decisão de seguir ou não com a denúncia.
“Escuta qualificada não é detalhe. É proteção.”
Um chamado à consciência
É com essa perspectiva que será realizado, no dia 7 de março, o 1º Congresso “Mulheres que Defendem Mulheres”. Promovido pelo CPAA Instituto de Ensino, o evento reunirá delegadas, promotora, defensora pública, psicóloga e a coordenação da Casa da Mulher Brasileira para apresentar o fluxo real de atendimento e reforçar que enfraquecer o sistema encoraja o agressor.
Ao desacreditar as instituições, a violência ganha espaço. Ao fortalecer a rede, vidas são preservadas. Mais do que um encontro técnico, o congresso propõe um debate público sobre prevenção, proteção e responsabilidade coletiva. Para diretora do CPAA, advogada e idealizadora do congresso, Maria Carloto, o papel do advogado é central nesse processo: “Queremos que a sociedade e os profissionais do Direito entendam que a justiça não é apenas um conceito distante, mas uma rede viva de mulheres protegendo outras mulheres.
Quando o advogado conhece o sistema, ele não descredencia a ferramenta; ele fortalece a defesa. Quando a informação chega de forma clara, o medo diminui e a coragem de romper o ciclo aumenta. Usar esses mecanismos salva vidas, sim”, afirma.
Enfrentar a violência doméstica não é apenas punir. É orientar. É acolher. É fortalecer estruturas que salvam vidas.
Serviço
Evento: 1º Congresso Mulheres que Defendem Mulheres
Data: 7 de março de 2026
Horário: 8h às 12h30
Local: Auditório da ADEPOL – Campo Grande (MS)
Evento gratuito