
Campo Grande/MS já vive o clima de um dos maiores eventos internacionais já realizados na cidade, em volume de público e grandiosidade de estrutura, e os efeitos vão muito além da música. A apresentação do Guns N’ Roses, marcada para o dia 9 de abril, no Autódromo Internacional Orlando Moura, começa a redesenhar a dinâmica econômica local semanas antes mesmo do primeiro acorde.
Durante coletiva realizada no fim de semana, no próprio autódromo, o empresário Valter Júnior, responsável pela produção do evento, deixou claro que o impacto financeiro será expressivo e imediato. Segundo ele, cerca de 70% do público estimado, que pode chegar a 40 mil pessoas, virá de fora, o que já pressiona setores estratégicos da economia.
A rede hoteleira, por exemplo, já opera no limite. “A gente está com uma dificuldade porque não tem mais lugar pra ficar. Campo Grande hoje não comporta mais essa demanda”, afirmou. A escassez de hospedagem já provoca efeitos em cadeia: imóveis por temporada ganham valorização, cidades vizinhas entram no radar e serviços alternativos passam a ser buscados por visitantes.
O reflexo se estende diretamente a bares, restaurantes, salões de beleza, lojas de roupas e serviços de transporte. “Se a gente está falando de quase 40 mil pessoas, sendo a maioria de fora, consumindo na cidade… é absurdo. As pessoas não têm ideia do quanto isso movimenta a economia”, destacou Valter. A expectativa é de aumento significativo no faturamento desses setores, especialmente nos dias que antecedem o evento.
Outro dado que chama atenção é o comportamento antecipado do público. A organização já projeta a chegada de aproximadamente 3 mil pessoas um dia antes do show, ampliando o tempo de permanência e o volume de consumo na cidade. Esse fluxo prolongado tende a beneficiar não apenas grandes estabelecimentos, mas também pequenos negócios locais.
Além disso, a alta demanda já impacta diretamente a mobilidade urbana e os serviços logísticos. Empresas de transporte privado, como vans e ônibus fretados, estão sendo mobilizadas para atender o público, inclusive com veículos vindos de fora do Estado. Motoristas de aplicativo também devem reforçar a operação diante de uma procura acima do normal.
Valter Júnior reforçou que, embora o evento seja privado, há necessidade de apoio institucional para garantir o pleno funcionamento da cidade durante o período. “A gente precisa de logística, de segurança, de estrutura. É um esforço coletivo. Por isso fiz questão de lançar junto com o governador, para dar o peso da responsabilidade”, explicou. A Polícia Rodoviária Federal já participa de reuniões estratégicas para organizar o fluxo nas rodovias e minimizar impactos no trânsito.
Apesar do cenário de limitação, o próprio desafio evidencia o potencial econômico do evento. Para Valter Júnior, esse é justamente o ponto de virada para a Capital. O empresário avalia que o sucesso da operação pode abrir portas para novos investimentos e consolidar a cidade na rota de grandes turnês internacionais. “A gente precisa mostrar que a cidade tem capacidade. Depois desse show, que é de uma das maiores bandas do mundo, acredito que muita coisa boa pode vir, talvez até algo maior”, afirmou.
A escolha do autódromo, inclusive, escancara uma das principais limitações estruturais da cidade: a ausência de um espaço adequado para grandes públicos. Com o Estádio Morenão fora de operação, a alternativa foi adaptar uma área completamente vazia. “Aqui não tem nada. A gente está no descampado. Precisamos montar tudo: hidráulica, elétrica, piso. É um investimento muito alto”, revelou.
Apesar das dificuldades, o entusiasmo é evidente. Valter Júnior classificou o projeto como a realização de um objetivo pessoal e profissional. “Foi mais de um ano e meio lutando para trazer esse show. Se eu consegui isso, praticamente já posso me aposentar”, disse, em tom descontraído.
O espetáculo, que faz parte de uma turnê mundial, deve ter mais de três horas de duração, celebrando os 40 anos de carreira da banda. A abertura ficará por conta dos Raimundos, grupo já experiente em grandes palcos e que acompanhou boa parte da turnê anterior.
Mais do que um show, o evento se consolida como um teste de capacidade para Campo Grande — não apenas em termos de estrutura, mas também de visão estratégica. Entre gargalos e oportunidades, a cidade se vê diante de um momento raro: provar que pode, sim, competir no circuito dos grandes espetáculos internacionais.
Se tudo sair como planejado, o legado vai muito além da noite de 9 de abril. Pode representar o início de uma nova fase para a economia criativa, o turismo e o posicionamento da Capital no cenário nacional de eventos.