
Quando a pressa da saudade batia, era comum correr até a esquina mais próxima em busca de um orelhão. Debaixo da concha colorida que virou símbolo urbano brasileiro, cabiam segredos, notícias urgentes, amores à distância e até despedidas. O som metálico das fichas caindo, o clique do cartão telefônico sendo inserido e a tensão de acompanhar, segundo a segundo, o tempo de conversa eram parte de um ritual que hoje sobrevive apenas na memória afetiva de milhões de brasileiros.
Na época das fichas, cada segundo era precioso. Era preciso falar rápido, escolher as palavras com cuidado e, muitas vezes, ouvir o aviso sonoro que sinalizava o fim iminente da ligação. Já nos anos dos cartões telefônicos, surgiram coleções, trocas entre amigos e até estratégias para aproveitar o máximo de tempo possível. Programar uma chamada era quase um evento: escolher o horário mais barato, torcer para o aparelho funcionar e, principalmente, garantir que ninguém interrompesse aquela conversa tão aguardada.
As ligações feitas em orelhões carregavam uma carga emocional e social que refletia o próprio ritmo da comunicação de outras décadas. O acesso era mais restrito, as conversas mais planejadas e o contato humano, de certa forma, mais valorizado. Hoje, essa cena começa a se despedir definitivamente das ruas brasileiras.
A era dos orelhões no Brasil chegou oficialmente ao fim com o início da retirada gradual dos telefones públicos, que começou em janeiro de 2026 e deve ser concluída até o final de 2028. A decisão ocorre após o encerramento dos contratos de concessão das operadoras e acompanha a transformação tecnológica que reduziu drasticamente o uso desses equipamentos.
Dados apontam que o número de aparelhos caiu 81% nos últimos cinco anos, reflexo direto da popularização dos smartphones e dos aplicativos de mensagens, como o WhatsApp, que transformaram a forma de comunicação. Com o fim das concessões de telefonia fixa, operadoras como Vivo, Claro, Oi e Algar deixam de ter a obrigação legal de manter a infraestrutura dos telefones públicos.
Mesmo com o desmonte em massa, uma pequena parcela dos equipamentos pode continuar ativa temporariamente. Estima-se que entre 9 mil e 30 mil aparelhos, de um total de cerca de 38 mil existentes em janeiro de 2026, permaneçam em funcionamento apenas em regiões onde ainda não há cobertura de celular 4G.
Criado em 1972 pela arquiteta e designer Chu Ming Silveira, o orelhão se tornou um dos objetos mais emblemáticos do espaço público brasileiro. Em seu auge, o país chegou a ter mais de 1,5 milhão de unidades espalhadas pelas cidades, consolidando-se como símbolo de acesso democrático à comunicação.
Com a retirada dos aparelhos, os recursos antes destinados à manutenção dos telefones públicos serão direcionados para a expansão das redes de banda larga e telefonia móvel, reforçando o avanço das tecnologias digitais.
O desaparecimento dos orelhões marca não apenas o encerramento de um ciclo tecnológico, mas também o fim de um capítulo carregado de lembranças. Entre fichas, cartões e o som característico das ligações sendo completadas, permanece a memória de uma época em que falar com alguém exigia planejamento, paciência e, sobretudo, valorização de cada palavra dita do outro lado da linha.