
Há cidades que crescem. E há cidades que carregam consigo as marcas de cada geração que ajudou a construí-las. Campo Grande, a Capital de Mato Grosso do Sul, chega aos 127 anos nesta quarta-feira, 26 de agosto, celebrando uma história que começou muito antes de se tornar município e que continua sendo escrita diariamente por quase 1 milhão de moradores.
Conhecida como Cidade Morena, Campo Grande tem hoje população estimada em 962.883 habitantes, segundo o IBGE, com referência em 1º de julho de 2025. No Censo de 2022, eram 898.100 moradores. O crescimento populacional traduz, em números, uma transformação que pode ser percebida nas ruas, nos bairros, na economia e no ritmo de uma cidade que se consolidou como principal centro urbano de Mato Grosso do Sul.
Mas a história da Capital começou muito longe dos prédios, avenidas movimentadas e parques que hoje fazem parte da paisagem.
Uma história que nasceu entre córregos e caminhos de boi
A ocupação da região remonta a 1872, quando o mineiro José Antônio Pereira chegou à confluência dos atuais córregos Prosa e Segredo. Anos depois, em 1875, retornou acompanhado da família e de uma comitiva de 62 pessoas, dando início à formação do povoado que se tornaria Campo Grande.
O pequeno arraial cresceu ao redor das primeiras construções e da atividade pecuária. Em 1878, foi construída a primeira igreja, dedicada a Santo Antônio, e a localidade passou a ser conhecida como Santo Antônio de Campo Grande da Vacaria.
Foi, porém, em 26 de agosto de 1899 que aconteceu o marco que dá origem à data oficial do aniversário. Naquele dia, a Resolução nº 225 elevou Campo Grande à categoria de vila e determinou a criação do município, então desmembrado de Nioaque. A sede municipal tinha aproximadamente 320 habitantes.
É dessa transformação administrativa que nasce a celebração dos 127 anos.
A cidade ainda precisaria esperar quase duas décadas para ser elevada à categoria de cidade, em 1918. Em 1977, com a criação de Mato Grosso do Sul, Campo Grande ganhou uma nova dimensão histórica e política: tornou-se a capital do novo Estado.
O trem, o comércio e a cidade que começou a acelerar
Se a pecuária ajudou a colocar Campo Grande no mapa, a chegada da ferrovia foi decisiva para acelerar seu desenvolvimento.
A inauguração da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em 1914, aproximou a cidade de importantes rotas comerciais e estimulou a chegada de novos moradores, comerciantes e trabalhadores. A ferrovia também contribuiu para transformar a paisagem urbana e ampliar a circulação de pessoas e mercadorias.
Foi nesse período que ruas que hoje são símbolos da Capital ganharam importância. A antiga Rua 26 de Agosto, considerada uma das primeiras vias da cidade, foi cenário de alguns dos primeiros estabelecimentos comerciais e serviços. Com o avanço da ferrovia, a região da atual Rua 14 de Julho também passou a concentrar comércio e hospedagens.
É por isso que caminhar pelo centro de Campo Grande é, de certa forma, percorrer capítulos da própria história da cidade.
Uma capital formada por muitos sotaques
A Campo Grande de hoje também é resultado dos muitos povos que chegaram ao longo do tempo.
Mineiros, paulistas, gaúchos, paraguaios, japoneses, árabes e representantes de diferentes comunidades ajudaram a formar uma cidade marcada pela diversidade cultural. Essa mistura aparece na arquitetura, nas tradições, nas festas, na música e, talvez de maneira ainda mais saborosa, na gastronomia.
O sobá, por exemplo, tornou-se um dos símbolos gastronômicos da Capital. A Feira Central, cuja história começou como uma feira de rua em 1925, ganhou novo espaço na antiga área da estação ferroviária e ajudou a transformar a culinária de diferentes comunidades em parte da identidade campo-grandense.
É uma cidade onde o tereré divide espaço com o café, onde o sobá se tornou patrimônio afetivo e onde diferentes sotaques se encontram nas mesmas avenidas.
A Cidade Morena que cresceu sem perder o verde
Outra característica que acompanha Campo Grande desde sua formação é a relação com a natureza.
A Capital sul-mato-grossense cresceu em uma região de cerrado e é reconhecida pela presença de árvores, parques, praças e áreas verdes espalhadas pelo tecido urbano. Entre as imagens que ajudam a definir a cidade estão as grandes avenidas arborizadas, o Parque dos Poderes, as áreas de lazer e o horizonte amplo que acompanha o cotidiano de quem vive por aqui.
O próprio apelido Cidade Morena está relacionado à tonalidade avermelhada do solo, uma característica marcante da paisagem local.
De 320 moradores a quase 1 milhão
Talvez nenhuma comparação seja tão capaz de dimensionar a transformação de Campo Grande quanto a população.
Quando o município foi criado, em 1899, a sede tinha cerca de 320 habitantes. Hoje, são 962.883 pessoas na estimativa do IBGE para 2025.
Em pouco mais de um século, a pequena vila transformou-se em uma das maiores capitais brasileiras. Na estimativa de 2025, Campo Grande aparece como a 15ª capital mais populosa do país.
Esse crescimento trouxe desenvolvimento, novos negócios, universidades, hospitais, centros de pesquisa, serviços, tecnologia e uma estrutura urbana cada vez mais complexa. Ao mesmo tempo, trouxe desafios típicos de uma cidade que se aproxima de 1 milhão de habitantes: mobilidade, habitação, saneamento, saúde, educação, preservação ambiental e planejamento urbano.
O aniversário, portanto, também é uma oportunidade para olhar para o futuro.
Uma festa que reúne gerações
A comemoração dos 127 anos mantém uma das tradições mais importantes do calendário campo-grandense: o desfile cívico-militar.
Neste ano, a programação terá início às 8h, na Rua 13 de Maio, com a participação de 61 instituições, entre escolas, projetos sociais, grupos culturais, clubes esportivos, colecionadores de veículos e instituições militares.
Depois do desfile, a celebração segue para a Avenida Afonso Pena, onde será distribuído um bolo comemorativo de 32 metros. A programação prevê cerca de duas mil fatias para a população.
A tradição ganha ainda um sabor especial em 2026: uma iniciativa do Sistema Comércio MS também prepara um bolo de 840 quilos, com expectativa de participação de cerca de 2,5 mil pessoas.
Mais do que uma festa, o aniversário representa o encontro de diferentes gerações.
É a criança que assiste ao desfile pela primeira vez. É o idoso que guarda na memória as antigas celebrações. É quem chegou recentemente à Capital e adotou Campo Grande como casa. E é quem nasceu aqui e acompanhou a cidade mudar diante dos próprios olhos.
127 anos de uma cidade que continua sendo construída
Campo Grande chega aos 127 anos carregando uma história que começou com um pequeno rancho, cresceu entre os córregos Prosa e Segredo, ganhou força com a pecuária, acelerou com a ferrovia e se transformou em capital.
Mas talvez a melhor maneira de contar a história da Cidade Morena seja reconhecer que ela ainda está sendo escrita.
Cada nova rua, cada bairro, cada comércio, cada árvore plantada, cada família que chega e cada geração que cresce ajuda a construir o próximo capítulo.
A Campo Grande de 1899 já não existe. A de 1977 também ficou para trás. E a cidade de 2026 certamente será diferente daquela que seus moradores conhecerão daqui a algumas décadas.
O que permanece é a identidade.
A terra vermelha. O céu aberto. O tereré compartilhado. O sobá da Feira Central. As grandes avenidas. As árvores. O sotaque de quem chegou e de quem nasceu. As histórias dos pioneiros. E o sentimento de pertencimento de quem chama a Capital de casa.
Aos 127 anos, Campo Grande não celebra apenas o tempo que passou.
Celebra tudo aquilo que ainda pode se tornar.
Parabéns, Campo Grande. Cidade Morena, capital de Mato Grosso do Sul, cidade de tantas histórias e de tantos futuros.