
No fim de semana, mais uma mulher foi vítima de feminicídio em Mato Grosso do Sul. Zelita Rodrigues de Souza, de 74 anos, foi encontrada com marcas de violência e o corpo, de costas, já em estado de decomposição. O principal suspeito é o companheiro, Vicente Asuncion Vidal Gonzalez, de 41 anos. Com o caso, o Estado chega à 12ª vítima de feminicídio em 2026.
De acordo com relatos de familiares à imprensa, o crime já era temido. Zelita sofria agressões físicas e verbais constantes. A pergunta que permanece é: por que, mesmo diante de tantos sinais, muitas mulheres permanecem em relações abusivas?
Para o psiquiatra Eduardo Araújo, especialista em saúde mental, não existe uma única resposta, mas sim um conjunto de fatores que aprisionam a vítima. “A dependência financeira ainda é um dos principais pontos. Muitas mulheres não têm autonomia para sair dessa relação. Soma-se a isso a falta de apoio, o medo de não serem acreditadas e, em alguns casos, até a culpabilização da própria vítima”, explica.
Ele destaca que há também mecanismos emocionais mais sutis e igualmente poderosos. “O relacionamento abusivo não é violento o tempo todo. Existe um ciclo: o agressor alterna momentos de violência com períodos de aparente afeto, promete mudar, pede perdão. Isso gera esperança e confusão emocional. Ao mesmo tempo, ele destrói a autoestima da mulher, fazendo com que ela se sinta incapaz de sair ou de recomeçar.”
Mesmo com o endurecimento das leis e o aumento da conscientização, a violência segue crescente. Em Mato Grosso do Sul, além dos feminicídios, já foram registradas 42 tentativas do crime até maio de 2026.
Quando o assunto é violência doméstica, os números também impressionam: 7.316 mulheres denunciaram agressões apenas neste ano. Em 2025, foram mais de 22 mil registros.
Segundo a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública, a maioria dos casos ocorre dentro de casa, tendo como agressores cônjuges ou parceiros, o que reforça o caráter íntimo e recorrente da violência.
O que leva um homem a matar?
De acordo com o Dr. Eduardo Araújo, o feminicídio raramente é um ato impulsivo. Trata-se do desfecho de um processo progressivo de violência.
“O feminicida, em geral, apresenta uma estrutura marcada por ciúme patológico, necessidade de controle e baixa tolerância à frustração. Ele não reconhece a mulher como sujeito, mas como uma extensão de si, uma posse”, afirma.
Segundo o especialista, o momento de maior risco costuma ser justamente quando a mulher tenta se libertar. “A rejeição ou o fim do relacionamento são vividos como uma perda de controle. Para alguns perfis, isso é intolerável. É quando a violência pode escalar para o nível mais extremo.”
Ele reforça que esse comportamento segue um padrão conhecido: “O ciclo da violência começa com tensão, evolui para agressão e depois entra na fase de ‘lua de mel’, quando o agressor promete mudança. Esse ciclo se repete até chegar a um desfecho mais grave.”
Além dos fatores individuais, o psiquiatra chama atenção para as raízes sociais do problema. “Muitos agressores cresceram em ambientes onde a violência era normalizada. O machismo estrutural reforça a ideia de domínio sobre a mulher, perpetuando esse comportamento ao longo das gerações”, pontua.
Para ele, combater o feminicídio exige ir além da punição. “O feminicídio não começa no momento do crime. Ele começa no controle, na humilhação, no isolamento e no silêncio. Se a gente não interromper esse ciclo antes, a violência escala.”finaliza.