
A Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal (PF) para apurar supostas fraudes envolvendo o Banco Master, completa seis meses nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026, com desdobramentos que alcançam banqueiros, empresários, agentes públicos, políticos e servidores de órgãos de fiscalização.
Até a sexta fase da investigação, executada em 14 de maio, a Justiça já havia determinado 21 prisões temporárias ou preventivas, 116 mandados de busca e apreensão e o bloqueio ou sequestro de bens que somam aproximadamente R$ 27,71 bilhões. As ordens judiciais foram cumpridas em Bahia, Minas Gerais, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e Distrito Federal.
A investigação mira um suposto esquema chefiado por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, apontado pela PF como principal alvo da apuração. O caso é tratado como uma das maiores suspeitas de fraude contra o Sistema Financeiro Nacional, com potencial prejuízo de dezenas de bilhões de dólares.
Segundo os investigadores, o grupo teria atuado na fabricação de carteiras de crédito sem lastro financeiro, movimentação de ativos sem avaliação técnica adequada, lavagem de dinheiro, corrupção de agentes públicos e uso de estrutura paralela para intimidação de desafetos.
As apurações começaram no início de 2024, a pedido do Ministério Público Federal (MPF). A partir das provas reunidas, decisões judiciais, especialmente no âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizaram prisões, buscas e bloqueios patrimoniais contra investigados.
A primeira etapa da Compliance Zero foi deflagrada em 18 de novembro de 2025. Na ocasião, Daniel Vorcaro, então com 42 anos, foi um dos sete presos.
A PF já investigava havia quase um ano indícios de fabricação de carteiras de crédito sem lastro. De acordo com a apuração, esses títulos teriam sido vendidos ao Banco de Brasília (BRB) e, depois de fiscalização do Banco Central (BC), substituídos por outros ativos sem análise técnica adequada.
Além de Vorcaro, foram presos Augusto Ferreira Lima, ex-CEO e sócio do Banco Master; Luiz Antônio Bull, diretor de Riscos, Compliance e Operações; Alberto Felix de Oliveira Neto, superintendente executivo; Ângelo Antônio Ribeiro da Silva, sócio do Master; André Felipe de Oliveira Seixas Maia; e Henrique Souza e Silva Peretto.
Na mesma fase, a 10ª Vara Federal de Brasília determinou o afastamento de Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, e de Dario Oswaldo Garcia, então diretor financeiro do banco estatal do Distrito Federal.
A operação ocorreu um dia depois de a Fictor Holding Financeira anunciar a intenção de comprar o Banco Master em conjunto com investidores dos Emirados Árabes Unidos. Meses antes, o próprio BRB havia tentado adquirir o Master por cerca de R$ 2 bilhões, mas o negócio foi barrado pelo Banco Central em setembro.
Com o avanço das investigações, o BC decretou a liquidação extrajudicial de instituições ligadas ao conglomerado Master, como Banco Master de Investimento, Letsbank, Master Corretora de Câmbio, Will Financeira e Banco Pleno. Também foram tornados indisponíveis bens de controladores e ex-administradores do grupo.
Até o momento, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) já teria gasto cerca de R$ 49,5 bilhões para ressarcir clientes do Grupo Master, do Will Bank e do Banco Pleno. O fundo garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em casos de intervenção ou liquidação pelo Banco Central.
A segunda fase da operação ocorreu em 14 de janeiro, quando o STF autorizou 42 mandados de busca e apreensão. A etapa buscava reunir provas de lavagem de dinheiro.
Com autorização do ministro Dias Toffoli, foram bloqueados mais de R$ 5,7 bilhões em bens de investigados. O pastor Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, chegou a ser detido quando tentava embarcar para os Emirados Árabes, mas foi liberado em seguida.
Entre os alvos das buscas estavam o empresário Nelson Tanure e o ex-presidente da gestora de fundos Reag Investimentos, João Carlos Mansur.
A terceira fase foi deflagrada em 4 de março e marcou a nova prisão de Daniel Vorcaro, que havia sido solto por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região dez dias depois da primeira prisão.
A PF afirmou ter encontrado, em celular apreendido do banqueiro, mensagens em que ele discutia com interlocutores a possibilidade de simular um assalto contra o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, além de outras ações violentas contra ex-empregados.
Segundo a corporação, Vorcaro controlava uma espécie de milícia particular para intimidar e coagir desafetos. O grupo era chamado por ele de “A Turma” e teria como chefe Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”.
Mourão foi preso em Belo Horizonte e levado à Superintendência da PF. Horas depois, foi encontrado desacordado na cela. A Polícia Federal informou que ele tentou suicídio, recebeu atendimento no local e foi encaminhado a um hospital, mas não resistiu.
Também foram presos preventivamente Fabiano Zettel e o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva. A fase incluiu ainda 15 mandados de busca e apreensão e bloqueio de cerca de R$ 22 bilhões em bens e contas de investigados.
O STF também determinou que o Banco Central afastasse Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária da Diretoria de Fiscalização, e Paulo Sérgio Neves de Sousa, ex-chefe adjunto do mesmo setor. Segundo o BC, os dois são suspeitos de atuar ilegalmente em favor dos interesses do Banco Master.
Em 16 de abril, a quarta fase da operação aprofundou as investigações sobre corrupção de agentes públicos. Com autorização do STF, a PF prendeu preventivamente Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, e Daniel Monteiro, advogado de Daniel Vorcaro.
Também foram cumpridos sete mandados de busca e apreensão.
De acordo com as investigações, Paulo Henrique Costa teria combinado com Vorcaro o recebimento de R$ 146,5 milhões em propina, valor que seria repassado por meio de imóveis. A PF afirma ter provas de que ao menos R$ 74 milhões foram pagos. Costa nega as acusações.
A quinta fase da Compliance Zero, realizada em 7 de maio, atingiu o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do PP e ex-ministro do governo Jair Bolsonaro.
Segundo a PF, Ciro Nogueira é suspeito de atuar politicamente em favor de interesses de Daniel Vorcaro. Em troca, teria recebido entre R$ 300 mil e R$ 500 mil mensais, além de outras vantagens, como custeio de viagens internacionais, hospedagens e despesas em restaurantes.
A investigação também menciona a atuação do senador na PEC 65/2023, que trata da autonomia do Banco Central. Em agosto de 2024, Ciro Nogueira apresentou acréscimo ao texto, posteriormente conhecido como Emenda Master.
A proposta previa ampliar a garantia ordinária do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Segundo especialistas, a mudança poderia comprometer a sustentabilidade do fundo. Para a PF, a emenda teria sido elaborada por assessores do Banco Master e entregue ao senador para ser apresentada no Congresso como se fosse de sua autoria.
Na mesma fase, foi preso temporariamente Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, apontado como um dos operadores financeiros do esquema. Ele havia sido alvo da segunda fase, em janeiro, mas escapou pouco antes da chegada dos policiais a uma casa em Trancoso, na Bahia.
O ministro André Mendonça expediu dez mandados de busca e apreensão, determinou bloqueio de R$ 18,85 milhões e impôs medidas cautelares a Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão de Ciro Nogueira, incluindo uso de tornozeleira eletrônica, entrega de passaporte e proibição de contato com investigados ou testemunhas.
A sexta fase da operação foi realizada em 14 de maio, com seis mandados de prisão preventiva e 17 mandados de busca e apreensão. Um sétimo mandado foi cumprido dois dias depois, com a prisão de Victor Lima Sedlmaier, capturado em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, em ação conjunta da PF, Interpol e polícia local.
Entre os alvos estava Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro. Segundo a Polícia Federal, ele participava do gerenciamento de “A Turma”, grupo apontado como milícia pessoal do banqueiro.
Também foi detido o policial federal Anderson Wander da Silva Lima, suspeito de repassar a Daniel Vorcaro dados sigilosos sobre investigações em andamento.
O ministro André Mendonça ainda determinou a transferência do policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, preso desde a terceira fase, para um presídio federal. A medida foi cumprida na sexta-feira, 15 de maio.
Entre os presos na sexta fase também estão David Henrique Alves, apontado como líder do núcleo tecnológico de “A Turma”; Sebastião Monteiro Júnior, policial federal aposentado; Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos; e Manoel Mendes Rodrigues, apontado como empresário ligado ao jogo do bicho no Rio de Janeiro.
Áudios de Flávio Bolsonaro ampliaram repercussão política
A operação ganhou novo componente político na última semana, após reportagens do The Intercept Brasil revelarem gravações em que o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pede dinheiro a Daniel Vorcaro.
Nos áudios, o parlamentar afirma que os recursos seriam usados no financiamento da cinebiografia de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, intitulada Dark Horse.
Flávio Bolsonaro admitiu a veracidade dos áudios e o teor da conversa, mas negou irregularidades. Segundo ele, todo o dinheiro fornecido por Vorcaro foi destinado ao custeio da produção do filme.
De acordo com o The Intercept Brasil, o banqueiro teria concordado em destinar R$ 134 milhões à produção, dos quais pelo menos R$ 61 milhões teriam sido liberados. A informação motivou parlamentares a pedir investigação sobre a origem e o uso dos recursos.
No domingo, 17 de maio, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, afirmou que o orçamento do filme sobre o pai “não é caro para os padrões de Hollywood”. A produção é dirigida pelo cineasta norte-americano Cyrus Nowrasteh e tem no elenco atores estrangeiros, incluindo Jim Caviezel, escalado para interpretar Jair Bolsonaro.
Na 1ª fase, foram presos Daniel Vorcaro, Augusto Ferreira Lima, Luiz Antônio Bull, Alberto Felix de Oliveira Neto, Ângelo Antônio Ribeiro da Silva, André Felipe de Oliveira Seixas Maia e Henrique Souza e Silva Peretto.
Na 3ª fase, as prisões atingiram novamente Daniel Vorcaro, além de Fabiano Zettel, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o Sicário, e Marilson Roseno da Silva.
Na 4ª fase, foram presos Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, e Daniel Monteiro, advogado do Banco Master.
Na 5ª fase, foi preso temporariamente Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro.
Na 6ª fase, foram presos Henrique Moura Vorcaro, David Henrique Alves, Victor Lima Sedlmaier, Sebastião Monteiro Júnior, Anderson Wander da Silva Lima, Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos e Manoel Mendes Rodrigues.
Com seis fases concluídas, a Operação Compliance Zero segue em andamento e mantém sob investigação uma rede que, segundo a PF, envolve fraude financeira, lavagem de dinheiro, corrupção, atuação política direcionada e uso de estrutura paralela de intimidação. A apuração ainda depende de novas análises de provas, decisões judiciais e eventuais denúncias formais do Ministério Público.