
A pesquisadora alemã Lydia Theresia Möcklinghoff, de 45 anos, foi cremada nesta quinta-feira, 16 de julho, em Campo Grande, treze dias depois de morrer na queda de um avião que havia decolado com destino ao Pantanal.
A cerimônia, realizada no Crematório de Campo Grande, localizado na Avenida Tamandaré, encerrou uma espera de quase duas semanas pela liberação do corpo no Instituto de Medicina e Odontologia Legal (Imol).
Agora, caberá à família definir o destino das cinzas. Entre as possibilidades estão o envio para a Alemanha ou a dispersão no Pantanal, região onde Lydia desenvolveu pesquisas e manteve uma ligação profissional por aproximadamente 16 anos.
Lydia morreu na manhã de 3 de julho de 2026, depois que o avião em que viajava caiu logo após decolar do Aeródromo Estância Santa Maria, em Campo Grande. O piloto Henrique Martin de Carvalho também morreu no acidente.
A aeronave seguia para a Fazenda Barranco Alto, em Aquidauana, local utilizado como base para parte dos estudos conduzidos pela pesquisadora no Pantanal. O bimotor caiu em uma área de vegetação situada a cerca de 50 metros do aeródromo.
O avião era um Neiva EMB-810D Seneca, fabricado em 1983 e vinculado a uma empresa de táxi-aéreo. A aeronave ficou destruída após atingir o solo durante a etapa inicial do voo.
Investigação analisa perda de controle
O reporte preliminar do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) classificou a ocorrência como perda de controle em voo. A descrição indica a dinâmica inicial do acidente, mas ainda não esclarece quais fatores provocaram a queda.
Segundo os dados preliminares, o bimotor perdeu o controle durante a subida após a decolagem. A investigação considera informações meteorológicas, registros de manutenção, dados de localização e depoimentos de testemunhas e profissionais envolvidos na operação aérea.
As condições de visibilidade no momento do acidente também são analisadas. O voo estava inicialmente previsto para ocorrer por volta das 5 horas, mas teria sido adiado, com a decolagem registrada aproximadamente às 6h20.
O aeródromo permitia operações sob regras visuais, enquanto a aeronave estava habilitada para voos por instrumentos. Até o momento, porém, não há conclusão oficial de que a neblina ou as condições meteorológicas tenham provocado o acidente.
Como o modelo não possuía caixa-preta, o trabalho dos investigadores depende principalmente da perícia nos destroços, de documentos técnicos, informações de GPS e dados relativos ao planejamento e à execução do voo.
O Cenipa ressalta que o conteúdo preliminar poderá ser alterado durante a apuração. “Seu teor ainda pode ser alterado e não vincula obrigatoriamente as conclusões que serão publicadas no Relatório Final das investigações”, informa o órgão.
Zoóloga, ecóloga tropical, bióloga comportamental, jornalista científica e guia da natureza, Lydia Möcklinghoff construiu parte significativa de sua trajetória profissional em Mato Grosso do Sul.
Ela possuía mestrado em Zoologia pela Universidade de Würzburgo e desenvolvia doutorado na Universidade de Bonn, ambas na Alemanha. A pesquisadora visitava o Pantanal havia mais de duas décadas e começou a trabalhar na Fazenda Barranco Alto em 2009.
Durante aproximadamente 16 anos, Lydia reuniu informações sobre a ecologia e o comportamento do tamanduá-bandeira, espécie que se tornou o principal foco de seus estudos.
Material de referência geográfica
O trabalho também incluía o monitoramento de outros animais do bioma, entre eles onças-pintadas, araras-azuis, ariranhas e pumas. A pesquisadora utilizava armadilhas fotográficas e outros métodos para acompanhar a biodiversidade pantaneira.
Além das atividades acadêmicas, Lydia atuava na divulgação científica. Suas experiências de campo eram transformadas em livros, podcasts, reportagens, palestras e conteúdos voltados ao público não especializado.
Um dia antes do acidente, em 2 de julho, ela publicou nas redes sociais um vídeo feito pela janela de um avião durante a saída do Rio de Janeiro. “Visão casual pela janela de um avião ao sair do Rio”, escreveu.
Exemplares de uma de suas obras sobre o Pantanal foram encontrados entre os objetos retirados dos destroços. A morte da pesquisadora gerou manifestações de instituições ambientais, organizações científicas e propriedades rurais ligadas à conservação do bioma.
Uma campanha internacional também foi divulgada com a proposta de financiar pesquisas, ações de proteção da biodiversidade e iniciativas de divulgação científica em memória de Lydia. Os responsáveis, contudo, ainda não detalharam quais projetos serão beneficiados nem como os recursos serão administrados.