Terra sei lei? | Delegada é alvo de comentários preconceituosos em rede social e entidades se pronunciam

“Nossa, delegada feia, tá mais para ser empregada doméstica aqui da minha casa que qualquer outra coisa, e tratar ela igual cachorro aqui.” “Mas dava...

Reprodução redes sociais


“Nossa, delegada feia, tá mais para ser empregada doméstica aqui da minha casa que qualquer outra coisa, e tratar ela igual cachorro aqui.”

Mas dava para ter penteado o cabelo pela manhã.”

Que derrota.”

A pobi precisa de descanso.”

Essa menina delegada se não se cuidar vai envelhecer fisicamente muito cedo”.

As mensagens, amplamente compartilhadas, viralizaram nas redes, provocando indignação de diversas entidades e autoridades locais. E não é para menos, as falas, racistas e misóginas foram direcionadas a uma delegada de Polícia de Dourados, em um post publicado enquanto atendia uma ocorrência.

Diante dos ataques, Thays Bessa registrou boletim de ocorrência denunciando o caso, que agora é investigado como crime de racismo e misoginia.

“É um sentimento de indignação. A pessoa ataca e se sente protegida por um computador. A gente evolui como sociedade, mas o racismo continua. O fato de ser autoridade não é obstáculo para isso.” Segundo ela, o autor apagou as mensagens, mas a ocorrência já havia sido registrada e as providências legais adotadas.

Em consequência da grande repercussão, autoridades e entidades se manifestaram, afirmando que tomarão providências a respeito do caso, como a deputada estadual Lia Nogueira, que em um vídeo gravado na manhã desta terça-feira, dia 07, disse que irá fazer uma representação do caso na Assembleia Legislativa e também encaminhar um pedido de investigação ao Ministério Público. O Conselho Municipal dos Direitos da Mulher também emitiu nota de repúdio esta manhã sobre o caso.

CONSELHO MUNICIPAL DOS DIREITOS DA MULHER
DOURADOS – MS

NOTA DE REPÚDIO

O Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Dourados – CMDM/MS, juntamente com as Instituições e Entidades abaixo relacionadas, vêm a público manifestar seu mais profundo REPÚDIO ÀS DECLARAÇÕES RACISTAS E MISÓGINAS, proferidas em rede social, contra a Delegada Adjunta Thays do Carmo Oliveira de Bessa, da Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário de Dourados/MS (Depac), após conceder entrevista para portais locais sobre um homicídio ocorrido na região.

Dra. Thays do Carmo Oliveira de Bessa sofreu, de modo hediondo, violência misógina, racial e de desrespeito à autoridade, por ser mulher, negra e desempenhando cargo de autoridade e poder.

O episódio representa mais um triste retrato do racismo e do machismo estruturais, que insistem em tentar calar e deslegitimar as vozes das mulheres, principalmente negras, que ocupam espaços de poder e autoridade. Não aceitaremos que o ódio, o preconceito e a violência simbólica sejam normalizados sob o falso argumento de liberdade de expressão.

Racismo e misoginia são crimes, não opiniões.

Tais manifestações, que atacam a honra, a dignidade e a competência de uma mulher negra, que exerce com reconhecida responsabilidade suas funções públicas, são inadmissíveis em uma sociedade democrática e plural. O racismo e o machismo, em qualquer de suas formas, constituem crimes e violências que ferem os direitos humanos, a Constituição Federal e os tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário.

As agressões dirigidas à delegada não atingem apenas sua pessoa — são ataques contra todas as mulheres, contra todas aquelas que diariamente enfrentam a misoginia institucional e o patriarcado em suas múltiplas formas.

Tentam diminuir o mérito, a competência e o direito de existir e falar, de quem ousa ocupar um espaço que historicamente lhes foi negado.

Expressamos nossa solidariedade e total apoio à Delegada Thays do Carmo Oliveira de Bessa, reconhecendo sua trajetória, compromisso e importância no enfrentamento à violência e na defesa da justiça e da cidadania.

Diante da gravidade dos fatos, requeremos das autoridades competentes a imediata apuração dos fatos e a responsabilização dos autores das ofensas, conforme previsto na legislação vigente Lei 14.532/2023, que equipara a injúria racial ao crime de racismo. Além da misoginia, manifesta em ato de calúnia, injúria e difamação. O silêncio e a impunidade não podem continuar sendo as respostas diante da violência racista e de gênero.

Reiteramos nosso compromisso com a promoção da igualdade de gênero, racial e o enfrentamento de todas as formas de discriminação, reafirmando que não aceitaremos retrocessos, nem silêncio, diante de violências dirigidas às mulheres, em especial às mulheres negras, que diariamente rompem barreiras e ocupam espaços de decisão e poder.

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